Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

No fundo era mesmo uma velha de alma lavada, lavrada pelas dores dos dias. Gostava de ouvir Chico, Nara, Dolores. Saudosista como poucos na casa dos vinte, observava o balançar da vida, o ritmo em camera lenta da cidade em caos. Na sua mais intensa indigência, imaginava o seu futuro, sem bem viver o presente. E assim entendia o sentido da feroz roda viva, aquela que leva o destino para lá.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

E dizia, finalizando uma conversa num fim de tarde: "É a vida vai vivendo por si só".

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Ela sabia o que ele gostava. Da fugacidade das coisas. Do cheiro inebriante que ficava no ar. Para ela, longe do mecanicismo que traz o pão: estavam as tardes de domingo. Todas vividas intensamente na doçura de um edredom. Bem distante da vida monótona das baias, da máquina de café. Ela queria mesmo era ouvir Los Hermanos, tomar café coado e viver das pequenas coisas. Da arte, da música, do cinema. Dos imãs de geladeira escolhidos como se fossem sua própria metonímia. Queria mais figuras de linguagem para eufemizar a feiúra dos dias úteis.

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

O caos, somente ele, trazia a calma dos dias de cansaço mental. Era preciso parar a roda-viva, ela queria descer. As coisas poderiam ser mais simples, menos processual.
Era como se antes do sentimento, tudo devesse ser necessariamente uma poesia bem escrita. E em meio a dor, a desordem e a rotina: ela moldava a pedra bruta dos seus sonhos mais profundos.

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Escrever. O que eu preciso é escrever.
Escrever. O que me resta é escrever.
Procurar o sentido entre as sílabas e o sentimento.
Resgatar o que do mundo anda perdido.
Olhar por entre as letras.
Descobrir novas nuances do dizer.
Interpretar o que de fato se passa internamente.
Exteriorizar meu insconsciente.
Mostrar sem-vergonha o que sou.
Escrever. O que eu preciso é escrever.
Escrever. O que me resta é escrever.

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Ela não vivia mais a euforia de outrora. Sentia falta. Mas, gostava da brisa suave que batia em seu rosto, serena. Gostava de olhar a vida, indo e vindo, feito onda do mar. Agora, ela estava outra vez segura. Dos olhos, nunca cansados de se cruzar, surgia um sabor doce. A vida era feita de baunilha. Do silêncio apaixonado, sempre surgia a dúvida, o medo. Até quando tudo seriam flores?

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Ela sabia que de certa forma não escolhera a vida que andava vivendo. Caiu nela de cabeça e começou a nadar sem direção. Entendia que chegara a fase tão temida: dava graças a deus pelo vale-transporte, pelo sapato de salto novo. Tinha seus medos: temia não ver mais a graça dos atos rotineiros. Temia que o checar incesante da sua caixa de e-mails fosse eterno.

Era uma menina de sonhos feitos de cartas. Gostava pegar as coisas, era menos digital que os outros. Era menos muitas outras coisas. Estava mesmo era temerosa de querer ser como os outros. Igual ela nunca seria, então viveria a angústia do quase-ser. E nessa busca mudaria a sua essência e o pior aconteceria.

Então, decidida, ao chegar em casa preparou um café (foda-se se já era quase onze horas e ela não durmiria sob efeito de tanta cafeína). Com a xícara na mão e todo o sentimento do mundo no peito, colocou seu vinil favorito dos Beatles e se pôs a cantar.
Amanhã, seria terça-feira. Para ela era apenas mais um domingo ensolarado.

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